Será necessário colocar flores na Quaresma ?

Há muito tempo que se vive o  radicalismo de não colocar flores na Quaresma, usando simplesmente verdura. Contudo, vemos que, embora timidamente, uma aproximação aos textos legislativos da Igreja, não validam esse radicalismo pelo que as flores aparecem, discretamente, mesmo na Quaresma. Se assim é, essa presença deverá ser sempre muito discreta, evocando sempre a austeridade deste tempo litúrgico (cf. IGMR 305), pois a assembleia está aí para se preparar a receber, cada vez mais “santamente”, a vida nova de Deus e dar-Lhe graças.  Sobretudo, este tempo, pede que se evite a abundância e o acrescentar sistematicamente Domingo após Domingo elementos suplementares que fazem da composição floral uma “boutique de supermercado”! Assim, não saberemos o que celebramos, pois não saberemos onde pousar o nosso olhar… e as flores tornam-se um obstaculo à oração; exactamente o contrário à razão porque elas lá devem estar.

Assim, será desejável que se guarde sempre a mesma estrutura de base (ou o mesmo vaso) que será o fio condutor do tempo litúrgico; do mesmo modo que se deverá utilizar um certo número de cânticos que se farão ouvir durante todo este tempo; de preferência os do Ordinário, específicos para este Tempo. Voltando à composição floral, se se utiliza um tronco, pedras, ou raíz, poder-se-á colocar de diferentes modos e colocar as flores (sempre de forma minimalista) de modo diferente cada Domingo. É aqui que a célébre escola de composição floral “Ikebana” será muito útil.

Como caminhar

Pouco a pouco seria desejável re-situar a questão da permanência da “natureza” no espaço litúrgico como apontamento da beleza da presença “Criadora” que nos ajuda a sentir a aproximidade com Aquele que louvamos. Deste modo, os grandes “molhos” de verdura que se impõem por todos os altares serão a banir, e muito mais em cima da mesa da celebração. A Introdução Geral ao Missal Romano é clara, e é a norma oficial, “No Tempo da Quaresma não é permitido adornar o altar com flores. Exceptuam-se, porém, o domingo Laetare (IV Domingo da Quaresma), as solenidades e as festas. A ornamentação com flores deve ser sempre sóbria e, em vez de as pôr sobre a mesa do altar, disponham-se junto dele.” (n° 305).

Se queremos ser fiéis à liturgia, que está em primeiro lugar para nós, é necessario chegar a esta sobriedade desejada; não será, pois, este equilíbrio na presença das flores, que melhor manifestará o jejum a que nos chama a Igreja?

Somos sempre sensíveis aos “vazios” num arranjo de flores para deixar um lugar à nossa sede, à nossa vontade de passar pela “beleza da natureza” e ir mais além, isto é, ser capaz de “ver” Aquele que é a Fonte de tudo e que nos chama constantemente a associarmo-nos a Ele neste acontecimento salvifico que é a Liturgia. Assim estes “vazios” poderão conduzir-nos ao recolhimento no mais íntimo segredo essencial: “deixar-nos reconciliar com Deus”, “Fecha a porta e ora ao Pai em segredo”, sem ser distraídos por outra coisa, nem mesmo pelas flores!

Somos chamados ao deserto, e é ele que muitas vezes se impõe à nossa volta, mas o olhar que nos penetra é o do próprio Amor. Viver humildemente e fazer penitência é, também, deixar que esse Amor faça obra em nós! Com coragem deixemos que a fonte nos sacie mas podermos fazer a travessia. A Alegria nos espera e uma grande paz habitará o coração: é, então, Páscoa e as flores deverão aparecer em abundância!

JR2011